Thursday, August 03, 2017

Educação do Século XXI no Brasil: relatos de uma educadora-pesquisadora viajante

Escola Projeto Âncora, Cotia, São Paulo.
Jardim do Joá, Rio de Janeiro.
Atividades na Floresta no Jardim do Joá.
Em minhas últimas viagens visitei iniciativas educacionais que surgem da necessidade de pais e mães que querem dar aos filhos a oportunidade de frequentarem uma escola onde haja contato com a natureza e práticas típicas de uma verdadeira infância: brincadeiras com materiais simples e naturais, brincar com galhos, pisar na lama, subir em árvores, plantar e ver as plantas nascendo e crescendo, as grandes descobertas com os pequenos animais, brincar e construir cabanas, caminhadas na floresta, etc. Neste artigo vou descrever brevemente as iniciativas que visitei nos últimos anos e refletir sobre as características em comum que elas têm e de acordo com a minha experiência e ângulo de visão.
Jardim Flor do Mandacaru: em João Pessoa na Paraíba, 
famílias que se unem para garantir uma infância
verdadeira e uma educação sensível.

No início de 2017 cheguei a João Pessoa, na Paraíba, quando uma iniciativa acabara de tomar corpo: Jardim Flor do Mandacaru, um grupo de pais, mães, e outras pessoas interessadas, alguns mesmo sem ter filhos na escola, se uniram para iniciar uma escola Waldorf, um jardim de educação infantil. Segundo um dos pais, eles escolheram essa pedagogia porque sua filha de cinco anos havia frequentado uma escola em Recife (Jardim Satori), ele disse que também foi transformado pela escola da filha, justamente porque o fazer educativo contava com a participação dos pais em mutirões, reuniões e eventos. Aquela experiência o permitiu pensar sobre a educação que ele teve, questionar alguns valores e costumes, transformá-los e ainda lhe deu suporte para viver, na experiência, aquilo que ele realmente acredita, um mundo melhor, com menos injustiças e confusões. Afirmou que gosta da pedagogia Waldorf[1] porque ela permite que as crianças aprendam na experiência, que é a forma que ele sente que teve os seus principais aprendizados, ele citou o yoga como exemplo.
Há também outra experiência em Rio de Contas, uma cidade histórica na Chapada Diamantina, na Bahia: o Jardim de Contas. Uma escola concebida por pais e mães que desejam criar a escola dos seus filhos para que eles tenham uma infância verdadeira e um convívio escolar baseado na autonomia e na curiosidade. Conversando com uma das gestoras da escola percebi que a fundamentação do fazer educativo é a pedagogia Waldorf na educação infantil e, ao projetar as séries seguintes, vê o estilo da Escola da Ponte uma adequada base para desenvolver o aprendizado com autonomia e engajamento comunitário. Ela afirmou que há pouco conheceu essa abordagem pedagógica e que havia participado de um curso à distância com os educadores da Escola da Ponte.


Escola Vila Verde em Alto Paraíso de Goiás.




Em junho de 2016 estive em Goiás, na Chapada dos Veadeiros visitei duas iniciativas. A primeira é a escola Vila Verde, em Alto Paraíso de Goiás, que existe desde 2010, durante esses seis anos passou por muitos altos e baixos e hoje tem um trabalho consolidado na comunidade, o que eu pude perceber numa visita em que fui recebida pelo Fernando, diretor e coordenador pedagógico e pude observar o cotidiano da escola e por toda a comunidade escolar na festa junina da escola, onde teve quadrilha e apresentação teatral das crianças, dentre outras atividades como: exibição de um filme (com a participação de alguns estudantes) e bazar com vendas para angariar recursos para a escola. Hoje em dia a escola funciona em uma casa alugada próxima ao centro da cidade, por isso ainda tem dificuldades financeiras, contudo, recentemente passou a ser apoiada por uma instituição budista que concedeu um terreno e a construção de um novo prédio para a escola, visitei o novo espaço que é amplo e com salas repletas de livros e cartazes sobre as atividades realizadas e os valores basilares da comunidade escolar.



O contato com a natureza é visível, tanto no prédio próximo à comunidade, que atende a educação infantil e o fundamental I, quanto no novo prédio já em funcionamento, atendendo o fundamental II, é possível perceber o movimento corporal e a interação entre as crianças de forma integrada, isso se dá tanto pelas características estéticas do espaço, mas também pela qualidade sensível com que se busca construir o conhecimento, ou seja, há uma intencionalidade consciente para desenvolver a prática educativa através do trabalho com projetos, pesquisas, campos artísticos, multimídia, etc. De acordo com o que observei a escola Vila Verde tem diversas influências pedagógicas, dentre elas destaco dispositivos semelhantes aos da Escola da Ponte, de Portugal, algumas características da escola Vila, de Fortaleza, Ceará, e também destaco práticas de permacultura, culinária, “técnicas” de resolução de conflitos e processos democráticos de tomada de decisões: assembleias coletivas.
Também em Goiás, visitei o Jardim Candombá, iniciativa de pessoas que trocaram a vida das grandes cidades para morar na natureza, na vila de São Jorge na Chapada dos Veadeiros. Por enquanto, o projeto funciona como atividades de contra turno, uma espécie de recreação, mas conforme observei é voltado para o livre brincar na natureza, também uma espécie de resistência pela verdadeira infância, com brincadeiras com os elementos e espaços naturais, com simplicidade e criatividade. O espaço fica num quintal espaçoso de uma casa, onde há chão batido, tanque de areia, parquinho para pendurar e escalar, balanço, uma casinha feita com técnicas de bioconstrução, várias árvores, bicicletas e motocas, etc.



Jardim Candombá, na Vila de São Jorge, em Alto Paraíso de Goiás.

O espaço também foi concebido pela iniciativa de mães e pais que, preocupados com as oportunidades disponíveis em Educação Infantil, resolveram construir com as próprias mãos o lugar de socialização e aprendizagem infantil dos seus filhos. A intenção é começar pequeno, primeiro como um projeto de “contra turno” (se a criança vai à escola pela manhã, vai ao projeto à tarde) e, aos poucos, ir criando condições para se tornar escola. É visível que esta iniciativa tem influências da pedagogia Waldorf e também do estilo da Escola da Ponte.
O ambiente educacional deve ser ao mesmo tempo simples e oferecer diversas possibilidades. Simplicidade para preservar na criança a capacidade de imaginar, de brincar com a terra, o barro, a lama, a água, a folha, a pedra, o pau, etc., e equipado para dar vazão às habilidades, a tinta, a aquarela, o papel adequado, a cola, a semente, a linha, o tecido, a boneca de pano, a cozinha, os blocos coloridos de madeira, a horta, as pás, o regador, etc. O ambiente de educação infantil dever ser, sobretudo, um jardim e uma comunidade (e não caixas de concreto estéreis de sentidos, forradas de azulejo e tapetes de borracha), a criança precisa ter contato com as coisas reais, com elementos e ambientes naturais.
Nos primeiros anos de vida o ser humano aprende principalmente pela experiência e pelo exemplo, através da corporeidade, da ação corporal e das relações. A criança aprende muito mais o que nós adultos fazemos do que aquilo que dizemos. Quanto mais envolvente a atividade do adulto, mais interesse a criança tem em participar e aprender, para isso ser possível, é necessário que o educador esteja presente e fazendo algo que realmente acredita, por isso faz com amor e prazer.
Um espaço amplo e em contato com a natureza possibilita o movimento corporal natural da criança e, assim, permite o desenvolvimento da motricidade e das estruturas mentais que se formam nesse momento de desenvolvimento: as bases emocionais, intelectuais e espirituais. Mães, pais e educadores que investem nesse tipo de educação sabem da importância do contato com a natureza para o bom desenvolvimento humano, porque, provavelmente, tiveram contato com a natureza quando eram crianças, ou porque já despertaram para a importância dessas experiências no aprendizado dos seus filhos.


Jardim do Joá, São Conrado, Rio de Janeiro - RJ.

Devo falar sobre minha própria experiência como educadora no Jardim do Joá, no Rio de Janeiro, que também é uma iniciativa de mães e pais preocupados com o tipo de educação que iriam oferecer aos seus filhos. Essa iniciativa vai ganhando experiência e força e se consolidando como espaço de Educação Infantil. Começou em 2013, já passou por três espaços, e em 2017 ocupa (aluga) o quarto espaço com objetivo de oficializar a sua atividade educativa e assim poder ampliar suas ações no sentido de ser uma comunidade de aprendizagem.
Um princípio que essas escolas têm em comum é o respeito ao ser da criança, ao que ela diz, aos seus sentimentos, ao tempo e ao espaço livres para fruir e brincar, é preciso deixar a criança ser por ela mesma sem intervir em todo momento no seu desenvolvimento e na construção da sua identidade. Deixar a criança ter suas próprias experiências e expressar o seu ser, por isso essas são iniciativas que utilizam a pedagogia também numa perspectiva estética e sutil, o saber sensível.
Esse trabalho exige do educador uma postura de observador atento, de escuta sensível, pois são muito valiosos os momentos que as crianças estão envolvidas na brincadeira, sozinhas ou com outras crianças. Atividades de fruição, imaginação, criatividade, de ação do corpo ou de contemplação, devem ser respeitadas e sempre haver tempo e espaço para isso, devemos valorizar o tempo livre que as crianças têm para brincar.
A postura de observador do educador se aproxima a alguns estados do artista: o deixar ser da inspiração, do improviso e da criatividade, a espontaneidade da curiosidade, o aprendiz que constrói o seu caminho de aprendizado. Essa capacidade do campo da criação e da percepção exige a reflexão sobre a essência da ideia de infância, da compreensão do que é o ser da criança que está em plena transformação em relação autopoiética[2] com o meio: constante construção e reconstrução de si na interação com o ambiente.
Essa postura educacional afirma o direito das crianças à natureza e à verdadeira infância e se posiciona contra as medidas quantitativas que não se interessam pelos reais problemas da Educação e das escolas, aumentam a quantidade de conteúdos e tempo de escolarização e diminuem os recreios, sem se debruçar verdadeiramente diante dos problemas qualitativos das diversas realidades e contextos escolares.
Para chegarmos a um nível coletivo de autonomia e prosperidade devemos começar, portanto, respeitando as crianças, ouvindo o que elas têm a dizer, baixar o corpo para nos “elevarmos” ao nível do seu olhar e olhá-las nos olhos, a raiz de uma educação para a autonomia é a sensibilidade e o respeito máximo, permitindo que a criança seja o que é, sem incutir os nossos preconceitos, medos, regras morais, etc. O educador sabe que aprende com as crianças tanto quanto as ensina, portanto, sabe ouvir, observar, aprender. Isso lhe deixa sensível para saber quando deve interferir ou não nas atividades das crianças, resguardando o livre brincar e o contato com a natureza enquanto direito.




Escola Projeto Âncora, Cotia, São Paulo.

Há ainda outra experiência educacional que me marcou nos últimos percursos dessas viagens formativas: a escola Projeto Âncora, em Cotia, São Paulo. Como pesquisadora, em meu mestrado, participei do cotidiano escolar, no qual as crianças e os educadores fazem assembleias para tomar decisões coletivas, fazem diversos círculos de diálogos para aprender, avaliar, discutir e refletir coletivamente sobre diversos temas, o círculo é a forma predominante de interação, porém vários outros arranjos fazem parte do aprendizado: trabalho com projetos e pesquisa, acompanhamento com tutoria, ou seja, cada educando tem um educador tutor que acompanha o percurso de aprendizagem do educando, aprende-se também no tempo livre, entre as árvores, nas brincadeiras, nos grupos de responsabilidades, nos quais as crianças participam do cuidado dos materiais da escola, da quadra, da biblioteca e também no trabalho do refeitório, há um grupo de responsabilidade contra o bulling, que trata desses assuntos quando eles surgem no dia-a-dia, aprende-se nas diversas oficinas e atividades que são oferecidas e que os estudantes se inscrevem de acordo com o seus interesses. O Projeto Âncora também oferece um programa de imersão na escola para educadores e grupos interessados em aprender sobre a prática educativa do projeto: a Transformação Vivencial. 
Acompanhei uma dessas experiências de Transformação Vivencial. Fui voluntária por dois anos na escola João Pio, quando morei em Tiradentes, Minas Geras, nos anos de 2013 e 2014, passei um ano visitando a escola Projeto Âncora quase todos os meses, pois foi meu objeto de estudo no mestrado. Cada uma dessas instituições tem uma história e características diferentes. A escola João Pio tem um processo repleto de contradições entre os métodos tradicionais bancários e o novo estilo libertador e voltado para a autonomia, porém, no final do ano de 2016 o grupo de mães e pais se uniram e elaboraram uma carta para manifestar à nova prefeitura que queriam a permanência do projeto na escola. Portanto, apesar das contradições, propiciou um clima democrático à comunidade, pois as famílias passaram a negociar com a prefeitura a respeito da escola, sendo sujeitos do processo. Lamentavelmente, o projeto não resistiu às mudanças na gestão do poder público e encerrou-se neste ano de 2017.


Escola Municipal João Pio, Tiradentes, Minas Gerais.
Sabemos que esses são processos difíceis, porque nem mesmo nós educadores tivemos uma educação libertadora e, por isso, transformar o método bancário exige um esforço maior, pois esse sentido de liberdade e de autonomia não está inscrito nos nossos corpos, fomos educados num formato orientado pelo autoritarismo e pela obediência, pelo egoísmo e individualismo, temos o desafio de desenvolver um fazer pedagógico fundamentado na comunidade, na curiosidade, na criatividade, na cidadania, no respeito e no amor. Somos talvez a geração da transição, da “trans-formação”, ou, pelo menos, uma das gerações. Diante desse esforço necessário devemos não nos “formar”, mas nos “trans-formar”.
O Projeto Âncora é, atualmente, uma das minhas principais referências de uma educação para o nosso século XXI, pois consegue ultrapassar o antagonismo e a hierarquia professor-aluno, para estabelecer uma relação em que o educando participa da gestão do tempo e do espaço em seu processo de aprendizagem. O percurso educativo considera os sonhos, os desejos e as curiosidades dos estudantes, o sistema de avaliação considera não só o aprendizado de conteúdos, mas também as atitudes e atuação na coletividade. Isso se alinha com o entendimento do que seja a práxis educativa[3]: relações e ações para a autonomia, construtoras da História e do conhecimento, uma Educação para o “ser mais”, para ser “sujeito da História”, o rompimento com a educação “bancária” (que atua como se depositasse conhecimento na cabeça dos alunos).
Diante dessas lembranças e relatos sobre as iniciativas educacionais que eu venho conhecendo, percebi alguns princípios dessas experiências, como, por exemplo: contato com a natureza e com a verdadeira infância, livre brincar, saber da experiência, participação da família e da comunidade, questionamento crítico da educação tradicional bancária.



[1] Ver Rudolf Steiner.
[2] Ver Humberto Maturana e Francisco Varela.
[3] Ver Paulo Freire.

Thursday, May 18, 2017

Eu errei

Eu errei quando pensei
Que a minha opinião não valeria
Que tanto fazia o meu voto
E a minha posição

Achei que poderia deixar
Para os outros irmãos
O trabalho, a missão,
De fazer funcionar.

Ingenuidade imatura,
Pensar superada a ditadura,
A escravidão, a tortura,
E ver que hoje em dia
Continua viva e dura.

Simplesmente eu não sabia
Consciência não tinha
De ver a luta histórica
No dia-a-dia.

Foi erro só enxergar política
No tempo de eleição
Foi erro me abdicar
De construir e influenciar.

Pior ainda esquecer
Que quem produz é o povo
Por isso, política é a feira,
A praça, a escola, a plantação.

Errei por me calar
E não dizer aos jovens
Que é preciso avançar
Através da democracia
Para a libertação.

A terra nossa
Tirar alimento do chão
Ser tudo que é nosso
Os royalties do petróleo
Para saúde e educação.

Eu simplesmente achei
Que independente de mim
Tudo estava caminhando
Mas não.

Até que o golpe foi chegando
E a gora veja, onde estamos!
Andamos para trás,
regredimos anos!


É preciso parar de pisar no próximo
É preciso que o “ouro” do Brasil
Seja nosso.


Saturday, May 13, 2017

Papel Branco

Eu acordo tão carente
Bebo um café quente
Escovo os dentes
Emociono-me em frente

Ao papel branco.

Escrevo para correr
Da cristalização do tempo
Que faz pensar o sentimento
Como determinação.

Escrevo para desenvolver
O que eu sinto
Para permitir sentir
Fazer crescer.

Cada letra que se faz palavra
Ideia que se torna texto
Sinto que mexo
Profundo em mim.

Lá fora tem Sol
Aqui dentro está frio
É outono
Quero tudo ao mesmo tempo.

Poesia e desenho todo dia,
Sol, música, fotografia,
Estudo, praia, criar,
Vida, forma, silêncio.

Quando escrevo,
Quiçá me liberto,
Do que fez de mim

O tempo.

Sunday, May 07, 2017

Sensação contemporânea


Gosto de ouvir
o barulho das máscaras caindo
Por mais que, às vezes,
me doam os ouvidos.

Gosto do chocalhar
da roupa suja lavando
Gosto de ouvir o povo
na rua gritando!

Às vezes consigo criar
Frestas no tempo
E apenas observar.

Ei, você que está vivo,
Para onde está indo?

Às vezes o tempo é o ônibus,
O vento do pneu no asfalto
Vem no rosto pelo meio fio.

Passou.

Às vezes durmo no ponto,
Mas continuo indo.

 

Sunday, April 30, 2017

Greve Geral, 28 de abril de 2017

Obrigada a todos e todas que foram aos protestos da GREVE GERAL do dia 28 de abril. 

Obrigada a quem está tomado pelo espírito da LUTA! 

Obrigada aos que curtem, compartilham e comentam nas redes sociais e assim criam um clima de DIÁLOGO POLÍTICO em nossa sociedade que, desde sempre sofre opressão e manipulação e, por isso, tem tantos analfabetos políticos. 

Obrigada aos que estão buscando se CONSCIENTIZAR e construir uma sociedade mais justa. 

Obrigada a todas as vidas que se dedicam a mudar o RUMO DA HISTÓRIA. 

Apesar da violência da polícia, aqui no Rio de Janeiro, as pessoas estavam se ajudando e se protegendo, havia muita união e solidariedade entre o povo.

Obrigada a todos que me fazem sentir esse AMOR! 

#foratemer #grevegeral #diretasja


Wednesday, April 19, 2017

“Todo dia é dia de índio” e o capitalismo nosso de cada dia



Primeiramente, fora Temer!

A questão indígena no Brasil, assunto que eu sei muito pouco, traz um ponto muito exato do problema ambiental do Brasil de hoje. Antes de mais nada, devo dizer que não defendo o povo indígena a partir de uma visão romantizada, mas numa perspectiva mais geral, racional e ética. Não cabe alguém me falar: “ah, você pensa que índio é tudo bonzinho?”, pois não é o que interessa aqui. O que trato é sobre os direitos que esse povo tem às suas terras e o papel ambiental da presença desses povos na preservação da riqueza natural e cultural que o Brasil tem, fonte da ciência, fundamental para o clima e para a saúde de todo o mundo.

Nós brasileiros vivemos no pulmão e, talvez, no coração do planeta. Temos uma biodiversidade imensa e complexa, as sabedorias e os segredos da vida estão presentes de forma abundante na natureza do nosso país. Os povos indígenas são a referência de saberes ancestrais de sobrevivência sustentável, vivem junto aos rios, nascentes e florestas densas desde milhares de anos.

O genocídio e constante ameaça que esses povos vivem partem dos interesses da pecuária de larga escala, da mineração, das grandes obras desenvolvimentistas, do agronegócio, das grandes monoculturas de soja, milho transgênicos e etc. A grande força desses mercados se dá devido à posição do Brasil na estrutura internacional do capital: exporta commodities (palavra do inglês, plural de commodity, que significa mercadoria), ou seja, matérias primas como soja, milho, carne bovina, café, etc. São produtos com pouco valor agregado, bens que não sofreram processos de alteração. 


A gente continua repetindo o mesmo padrão colonial, mas num rearranjo moderno: exportamos matérias primas e compramos de fora os produtos manufaturados - “coexistência do antigo regime dentro do novo” (FERNANDES, 1973, p. 52). Além disso, as estruturas e dinamismos políticos e econômicos praticados no Brasil, constantemente, nos colocam em posição de submissão às economias centrais, a crescente financeirização da economia abre ainda mais espaço para gerar dependência e subdesenvolvimento: padrão dual de acumulação originária de capital (enriquecimento de agentes internos e externos que exploram o trabalho dos países subdesenvolvidos) e o modelo de apropriação repartida do excedente econômico nacional (a produção da riqueza é dividida entre a elite nacional e os “investidores” das economias internacionais).

Isso acontece no Brasil e na América Latina graças ao modelo colonial de exploração que marca o processo histórico de constituição desses países que, mesmo depois de "independentes", ou emancipados politicamente, continuam reproduzindo o mesmo padrão de submissão às grandes economias, esse padrão de dependência vai se reconfigurando com as sucessivas crises que caracterizam o capitalismo. Essa espécie de repetição acontece porque há uma elite que  garante essa abertura ao capital internacional, ou seja, o poder vem sendo passado por mãos que trabalham para conservar os próprios privilégios e que constituem uma classe de poucos que concentram as grandes riquezas. 

Esse “grupo” garante alianças com outros grupos ainda mais poderosos de nações desenvolvidas, como a Inglaterra e os Estados Unidos. No Brasil vemos isso acontecendo de diversas formas, uma delas são as privatizações das instituições estatais e nacionais, as concessões para o capital estrangeiro explorar nossos recursos naturais (como a exploração de petróleo e minerais, por exemplo).

O povo brasileiro possui em sua História a invasão, a violência e a expropriação, ao mesmo tempo, carrega o mito da brasilidade como formação do imaginário do povo sobre si mesmo: cordialidade, hospitalidade, sensualidade, alegria, calor humano. Essas características, apesar de positivas, escondem cicatrizes de nossa história de opressão e dominação que moldou um povo para obedecer e aceitar. Um povo altamente afetivo, mas pouco racional para se apropriar do seu país e ser sujeito de sua História. 

Cumpre lembrar hoje, nesse dia 19 de abril,“dia do índio”, que a sensual mestiçagem brasileira e a exuberância de nossa natureza e dos povos indígenas, deve nos remeter à profunda situação de submissão e exploração que iniciou a História do Brasil e se perpetua cada dia mais voraz com a força do capital, da mercantilização do trabalho, com a objetificação das pessoas e da natureza. O padrão de relação da dominação e exploração. Imagine quantas mulheres indígenas e pretas foram exploradas, estupradas, violentadas, quantas vidas foram geradas assim, por meio da força e do sofrimento.

Quando o Brasil tomar coragem, reconhecer a sua própria História, a luta do povo, e assumir as rédeas de sua soberania, irá impor o esplendor de suas riquezas e vai mostrar ao mundo o que é realmente que tem valor: a água limpa, a terra fértil, a floresta intocada, os biomas preservados, a biodiversidade, a produção de alimentos livres de agrotóxicos e transgênicos, etc. 

Toda luta que se assume hoje pelos direitos dos indígenas, das mulheres, da natureza, etc. é, antes de tudo, uma luta contra o capitalismo.

[...] as estruturas do capitalismo dependente estão preparadas para organizar a partir de dentro as “condições ótimas” da sobre-apropriação repartida do excedente econômico, sociocultural e político das sociedades hegemônicas preponderantes. A continuidade e a constante renovação dos vínculos de renovação dos vínculos de subordinação ao exterior e da satelitização dos dinamismos econômicos,socioculturais e políticos não se impõem colonialmente, mas graças a uma modalidade altamente complexa de articulação (parcialmente espontânea, parcialmente programada, orientada e controlada) entre economias, sociedades e culturas com desenvolvimento desigual, embora pertencentes à mesma civilização. As duas faces dessa modalidade de articulação são o “imperialismo econômico” e o “capitalismo dependente” (FERNANDES, 1973, p. 59).

Referências:
FERNANDES, Florestan. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.


Monday, April 17, 2017

O que o golpe de 2016 fez contigo?


Contigo eu não sei, mas comigo, aniquilou a possibilidade de eu ter uma bolsa de doutorado. Fez eu me sentir ainda mais vulnerável na condição de trabalhadora brasileira, cujos direitos foram ameaçados e roubados. 

O golpe fez a violência aumentar em minha volta, topo tipo que se possa imaginar, pessoalmente e através das mídias, aumentaram guerras, mortes, crimes, balas perdidas, desemprego, desespero. Aumentou a percepção da profundidade da corrupção do país: o poder judiciário imparcial, corrupto e insano. 

Através do golpe eu aprendi alguns dos elementos essenciais da soberania do Brasil: a água, o petróleo, o nióbio, a Educação, as terras, a Amazônia, a cultura, a democracia, etc. Pois são estes os elementos que o capitalismo selvagem das economias centrais contemporâneas mais cobiça e, por isso, financia o desmonte do Brasil, apoiando a candidatura de homens e mulheres que se comprometem em entregar-lhes as nossas riquezas, através das privatizações dos recursos e das instituições estatais do nosso país. 

Esse golpe me fez perceber o quanto o projeto do capitalismo selvagem é eficiente e o quanto a esquerda está dividida e desmobilizada diante dos problemas de hoje. Existe uma anestesia política pairando no ar, ao mesmo tempo em que notícias sensacionalistas nos roubam a atenção para nos desmobilizar mais ainda. 

Nós temos todos os motivos para não fazermos nada: estamos cansados, explorados, expropriados, endividados, mobilizados pela zona de conforto e pela zona de opressão, sem tempo para nós mesmos, individualizados egoística e racionalmente em nossos quadrados. Não sabemos o que fazer e mesmo se soubéssemos, talvez, não faríamos, afinal, dá muito trabalho projetar a mudança de um país.

Afinal, somos muito pequenos para lutarmos contra o aparelho de hegemonia do capitalismo selvagem, eles têm bombas atômicas, exércitos e canhões, e nós, o que temos?