Wednesday, April 06, 2016

Escola Municipal João Pio - Tiradentes, Minas Gerais


Cheguei à Escola João Pio, no bairro das Águas Santas em Tiradentes, em outubro de 2013. Comecei as atividades com as crianças falando sobre Permacultura e propondo um replanejamento da escola. Fizemos um exercício de imaginar e desenhar “a escola como ela é” e “a escola como eu gostaria que ela fosse”. Também fizemos atividades no quintal e plantamos algumas sementes de milho orgânico e crioulo próximo à cerca da escola. O mutirão ecopedagógico é um momento de conexão com a natureza e de trabalho coletivo, onde se experimenta o emocionar comunitário, o cuidado da terra e das pessoas, além do nosso contato com o solo e com a vida. Essa foi então a proposta inicial e a abertura em que eu conheci as crianças, as professoras e o restante da equipe.





















Em junho de 2013 promovi na cidade de Tiradentes uma palestra do José Pacheco, um dos idealizadores do projeto da Escola da Ponte, de Portugal, ocasião em que fiz uma parceria com o prefeito da cidade, conseguindo que toda os profissionais da educação do município estivessem presentes. Promovi ainda uma reunião com o educador José Pacheco, o prefeito e a secretária da educação, onde foi firmado uma parceria entre a Escola Projeto Âncora e a Prefeitura Municipal de Tiradentes.
Vale ressaltar que atualmente o professor José Pacheco reside no Brasil, em São Paulo, e é colaborador da Escola Projeto Âncora, em Cotia (SP), cuja proposta pedagógica é inspirada na prática da Escola da Ponte. Ressalto ainda que iniciei os meus estudos no mestrado em Educação na Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ) com o projeto de pesquisa intitulado: "Corporeidade, Educação Estética e Libertadora: Diálogos Possíveis a Partir do Estudo de Caso da Escola Projeto Âncora".

 

Estive comprometida como voluntária na Escola João Pio no período entre outubro de 2013 e novembro de 2014. A partir de 2015, como comecei a viajar muito para São Paulo, em virtude da observação participante na Escola Projeto Âncora, não pude continuar as atividades na Escola João Pio com a mesma frequência e comecei a participar das reuniões e fazer atividades com as crianças mais esporadicamente. O ano de 2015, sem dúvidas, tinha uma quantidade maior de voluntários do que em 2014, quando era um desafio ter voluntários o suficiente para manter as atividades da escola em período integral.

A partir do acordo firmado entre a Prefeitura de Tiradentes e a Escola Projeto Âncora, a Escola João Pio passou a receber as crianças em período integral em 2014 e diante, foi escolhida para passar pelo processo de “Transformação Vivencial”, um projeto desenvolvido pela Escola Projeto Âncora, que recebe educadores de outras escolas em uma residência dentro da escola e estes passam uma semana de imersão na prática pedagógica do Projeto Âncora, onde, assim como a Escola da Ponte, não há séries, nem aulas, nem professore, mas sim, educandos e educadores, todos aprendizes, em grupos, em salas amplas, espaços livres, pesquisas, projetos, assembleias, etc.

No começo, testemunhei um medo muito grande por parte das professoras da Escola João Pio e também de algumas mães de educandos, contudo, entre organizamos reuniões com as professoras, exibimos vídeos sobre a Escola da Ponte e o Projeto Âncora e, aos poucos, as professoras e as mães foram se interessando. O medo, porém, acompanhou o processo ainda durante um tempo, o medo de errar por parte das professoras que, por diversas vezes, se viram nos limites de diversas situações.

As professoras foram para Cotia passar uma semana hospedadas dentro da Escola Projeto Âncora e quando voltaram a Tiradentes estavam encantadas, animadas e tomadas pela sensação de estar participando de um projeto de transformação da forma de fazer Educação. Contudo, justo por se tratar de uma ação transformadora, apareceram muitos desafios, novos medos e principalmente uma dificuldade de ressignificar os antigos “padrões” educacionais da competitividade, da hierarquia, do castigo, etc.

Percebi vários progressos na forma de fazer educação da Escola João Pio, primeiramente porque no final de 2013 houve uma recolocação da equipe de profissionais da escola, a diretora, por exemplo, não quis permanecer quando soube da mudança da proposta pedagógica e assim a escola seguiu sem diretora. Houve dificuldades em dividir as “turmas”, a todo momento as professoras se sentiam vinculadas ao modelo da “educação tradicional” e ficavam meio perdidas para iniciar com as crianças o trabalho de aprendizado por projetos e pesquisas, porém, a ideia do projeto sempre foi que a própria escola desenvolva o seu “jeito de ser” e a partir disso é que realmente é possível projetar as mudanças. Outro resultado esteticamente visível foi a alegria das crianças, passei a vê-las mais em grupos, melhoraram a capacidade de dialogar, resolver conflitos e foram, a cada momento, aproveitando e experimentando as oportunidades de liberdade e de ação democrática, como participar de assembleias e decidir no coletivo, por consenso.

Ao meu ver, o projeto tem vários pontos delicados, um deles é que por várias vezes percebi que a equipe pedagógica não conseguiu se colocar diante das “ordens” do prefeito e da secretaria de Educação, não me refiro a se impor como forma de insubordinação ou rebeldia, mas enquanto decisões tomadas mediante o diálogo, a clareza e a transparência. A questão do voluntariado também é desafiadora, afinal, depender de voluntários para poder oferecer educação em período integral é, no mínimo, uma vulnerabilidade. A “formação” dos educadores é outro ponto, pois, afinal: como desenvolver uma educação libertadora, democrática, da autonomia se os educadores tiveram uma trajetória escolar e acadêmica toda na “educação tradicional” e, portanto, “bancária”?

Deste último ponto decorre o maior desafio que identifico atualmente na Escola João Pio: a ética nas relações intersubjetivas. Ou seja, vejo uma enorme dificuldade por parte das educadoras para resolver os problemas pessoais que ocorrem no dia-a-dia, muitas vezes surgem fofocas, brigas e as resoluções acabam ficando desgastante, não há amizade entre a equipe, algumas vezes até, falta de respeito. Então vale perguntar: como as educadoras que têm dificuldade de se relacionarem entre si, podem ajudar as crianças em suas dificuldades de relacionamento? Onde ficam os valores matriciais do projeto: respeito, afetividade, solidariedade, honestidade e responsabilidade? Observei que na Escola Projeto Âncora há um princípio conhecido por todos: “falar com e não falar de” e por várias vezes, vi que na Escola João Pio isso ainda não está incorporado no cotidiano. 

No início do ano de 2016 defendi a minha dissertação no mestrado e recebi um convite do prefeito de Tiradentes para trabalhar na Escola João Pio, fiquei muito feliz com a oportunidade e topei na hora. O combinado é que eu trabalharia 20 horas semanais, de segunda a sexta e receberia 1.000,00 reais por mês. Infelizmente, por problemas administrativos não foi possível a minha contratação, devido ao prefeito estar no final de sua gestão, não era mais possível contratar novos serviços, então tivemos que desistir da ideia. Dias depois recebi a fofoca de que o motivo de eu não ter sido contratada foi porque eu queria receber uma quantia acima do salário das professoras. Fiquei sem saber o que fazer com essa fofoca, afinal, era algo que tocava em minha profissão, algo que eu cuido com muito zelo. Além disso, sempre fui muito bem tratada por todos da Escola João Pio, então foi difícil acreditar. Depois de esfriar a cabeça, preferi levar essa questão pelo lado filosófico: não interessa quem falou a fofoca, mas sim a constatação concreta que a questão das relações intersubjetiva é uma problemática de ordem capital.
 

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